Boogiepop wa Warawanai
Primeiro ato.
Mitos estão intrisecamente conectados com as raízes da existência humana, tais conceitos como fábulas, lendas e suas naturezas de mistério palpável são o que nos fazem desprender um pouco da realidade e muitas vezes abraçar perspectivas diferentes em modos de como enxergar o nosso cotidiano. Estamos constantemente revivendo essas lendas em nossas mentes, por mais que a conclusão seja invariável e cética, somos alçados pela curiosidade enraizada em nós. Somos detetives tentando descobrir o mistério da vida, e a vida é, desse modo, em suma um mistério, por si só. E é por tal que existe a importância do ato de imaginar, e do ato de acreditar; se nada for real, então nada possui significado, ou seja, nada importa. Mas, diferentemente, se algo for real, então algo é irreal. E é por isso que estamos constantemente na busca do real, para termos um significado claro em conclusão, uma consumação dos fatos e um caso resolvido.
A natureza humana é, por certo, uma das coisas mais fascinantes de se ter como ponto de partida para uma discussão como esta. Vivemos buscando uma autoconsciência de quem somos, do que somos, e o que devemos fazer. Em busca de um lugar, em busca de uma sensação, em busca de prazer, em busca de felicidade. Em constante busca, em constante procura, mas nunca achando. Mas sabe o que é interessante? Não é por não encontrarmos que não existe. E é isso que nos move: a certeza de que existe. Claro que existe; por que não existiria? Se dermos vozes aos nossos pensamentos, se dermos imagem a nossas ideias, se acreditarmos, aquilo existe e o imaterial, pode, por certo, se tornar material. É por isso que, ao invés de buscar a autossatisfação em outros, é primordial buscá-la em nós mesmos. Só vamos ter um final feliz quando entendermos que, no fim, eu sou eu.
Mas isso não tem nada a ver com a nossa natureza empática, em verdade; a correlação que dá para fazer é que, bem como acreditamos estar em plena satisfação com nós, tal também é ligado ao fato de buscar uma satisfação interpessoal para com o outro. Em suma, é tudo egoísmo, mas não de uma maneira ruim. O mais interessante é que, por certo, analisar o quão distante estão os conceitos de uma interação interpessoal, com uma interação consigo mesmo, por que em certos casos é tão mais fácil entender o outro, e permanecer em incompreensão do que você é, outrora é mais fácil se cegar ao que o outro crê e fechar-se em sua própria linha de imaginação, em sua própria realidade; seu mundo.
Seu mundo que está, provavelmente, quebrando aos pedaços. Não pela inconsistência de um, nem por sua falta de atenção, mas só porque tudo está entrando em pedaços. Tudo está se autodestruindo, e você é só um fruto dessa realidade autodestrutiva. Você é o fruto desse mundo, seu mundo é o fruto desse mundo, e resta para nós apenas a consumação desses fatos. Mas não, por certo, a aceitação desses.
É por isso que as lendas existem. E uma delas é tão palpável e aplicável a nossa realidade, que nem sequer parece uma lenda, mas apenas mais um fruto do cotidiano.
“Há uma lenda urbana que os jovens contam entre si sobre um shinigami que libera as pessoas da dor que eles podem estar sofrendo. O “Anjo da Morte” tem um nome — Boogiepop. E as lendas são verdade. Boogiepop é real.”
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A realidade destrutiva da qual falo não é um conceito material, embora você possa olhar as formas desse ponto de vida. É a realidade inconcebível a qual estamos dispostos; onde a vida é nada mais que um prelúdio da morte, e não há um posfácio concreto. São apenas conceitos jogados ao vento sem qualquer clarificação, portanto não há o que se compreender, só restando aceitar. Isso é difícil para alguém com o gene do mistério correndo em suas veias, a aceitação do que não se pode ver simplesmente por assim ser como é, e isso gera uma melancolia indistinta no processo da vida, além de que pode, muito bem, gerar sofrimento. O ato constante da vida cria incertezas, e essas incertezas tomam formas em mentalidades deturpadas, e a partir desse ponto são variadas as possibilidades.
Em meados dos anos 90 o Japão era toda uma nação envolta por essa materialidade imaterial que dá vez a frase “não tem para onde correr”; certamente, eram tempos difíceis, e a juventude estava incerta com relação ao futuro mais do que nunca. Os anos passavam e a virada do milênio cada vez mais se aproximava, e o fim dos tempos vinha ferozmente rastejar suas mãos por sobre a falta de fé das pessoas. E foi nessa realidade deturpada que soou a sétima trombeta do Apocalipse, Neon Genesis Evangelion, com seu futuro pós-apocalíptico e personagens humanamente defeituosos interagindo entre si, enfrentando monstros gigantes, embates políticos, possíveis fins do mundo, e, no fim de tudo, ainda tendo que enfrentar a pior batalha de todas: a si próprios; e a realidade trágica que os moldou para assim ser quem são. Neon Genesis Evangelion não só serviu como um reflexo para a situação de um país desolado, mas bem como uma carta de amor para todos que já passaram por uma realidade similar. Parabéns.
Mas esse não é um texto sobre Evangelion, apenas contexto.
No fim dos anos 90, mais precisamente, em 1998, um autor aspirante publicaria um livro que revolucionaria a mídia de “light novel” por definitivo. Esse livro, um sucesso que concretizou todo um gênero, e inspirou vários autores a escreverem obras que viriam mais tarde para demarcar essa mídia como popular. Boogiepop wa Warawanai (Boogiepop Doesn’t Laugh) ou Boogiepop and Others, é um livro que se desvirtuaria do que até então se resumia as light novels, e narraria uma interessante história sobre: adolescentes colegiais e suas… ansiedades pessoais?! E claro, uma pitada de sobrenatural. Uma pitada generosa.
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Boogiepop é uma história acronológica que divaga pelos diferentes pontos de vistas de alunos do ensino médio; acontecimentos estranhos circulam a natureza obscura e desconfortante desse colégio que fica isolado nas montanhas, como o desaparecimento de garotas. Dentre isso, há uma lenda urbana da entidade chamada de “Boogiepop”, que é citada como sendo um “shinigami”, e curiosamente é de conhecimento apenas das estudantes do sexo feminino desse colégio.
A parte interessante de se ler esse livro é o quão apelativo no sentido de seus temas ele consegue ser, e o quão a escrita de Kouhei Kadono é condizente e passa perfeitamente a sensação de estar presenciando algo que está fora de lugar em seu pretexto primário, algo que não está correto e suas raízes estão deturpadas. É como um processo obscuro, é como ler às escuras e ter de forçar a vista para realmente conseguir enxergar alguma coisa. Sinto como se essa história fosse atemporal em sentido de seus temas; mais que atemporal, não apenas a frente de seu tempo, o interessante em Boogiepop é como pode ser tão palatável, tanto quanto era no passado, como é no presente e certamente será no futuro. A longa introdução que eu fiz até chegar até aqui embasa bem alguns conceitos que, em suma, estão enraigados em nossas naturezas e por isso sempre estarão presentes em nosso funcionamento cotidiano. Boogiepop não é tão sutil para ser uma carta de amor, não há sequer grão de romantismo em suas estruturas literárias, seus personagens são densos e relacionáveis até demais para estarem em situações tão irregulares. E isso é puro mistério, e é pura humanidade. Humano, humano até demais.
Segundo ato.
O quanto você acredita na influência de uma pequena ação? Quando digo por “pequena”, quero dizer quase insignificante, mas isso no seu ponto de vista, na perspectiva de quem executa a ação. Aqui há brechas para exemplificações, mas eu prefiro evitar deixar o texto expositivo demais, então pense um pouco por si só; pense em quanto esse ato que para você pode não significar nada, que para você pode soar tão natural e tão comum, pode influenciar num espectro maior. Pense em visões de mundo, tão diferentemente sórdidas entre si, pense em suas individualidades, e seus diferentes códigos de valor. Pense no valor não como um valor exato, mas completamente flutuante, como bolhas. Automático. Pense nas correções de erros que um dia já planejou fazer, mas que postergou por tanto tempo. Pense nas suas inseguranças, que para os outros não significam nada, mas ainda assim você fica minimamente feliz quando demonstram qualquer apoio. E pense na inveja que sente de ver os outros juntos enquanto está sozinho, mas como não sabe agir quando alguém tenta iniciar uma conversa. Pense na insignificância de tudo isso, e agora reflita: tem certeza de que tudo isso é realmente insignificante?
Quando alguém precisa de ajuda, quando alguém está desolado, quando seu mundo foi partido ao meio; quando alguém dispõe sua mão para essa pessoa, pense nas perspectivas. A pessoa que dispor sua mão nem precisava fazer de tal: sua vida continuaria a mesma, como se nada tivesse acontecido, como se nada mudasse para si, mas para o outro; sem exageros, o seu mundo estaria salvo. Sem exageros, sua alma estaria salva. Não é o fruto de uma empatia barata, mas você pode dizer que é o fruto do destino as coisas “acontecerem dessa forma”, você pode dizer que algumas pessoas são mais iluminadas que as outras (e consequentemente algumas são mais negativas). Independente do que você acredite, independete do que for real e o que for irreal, o fato é que isso mudará por completo o dia daquela pessoa. O fato é que, esse ato insignificante na vida de um, foi extremamente significante na vida do outro. Não existem atos insignificantes. Não existem ações que não devam ser tomadas. São escolhas a se fazer, definitivamente.
Adolescentes do ensino médio talvez não acreditem nisso, ou talvez estejam ocupados demais se preocupando com as luxúrias da vida para sequer pensar nessas possibilidades. Em verdade, como a mentalidade humana está deturpada, como o mundo globalizado fez o inverso do que supostamente deveria ter feito, do modo como as pessoas estão cada vez mais distantes; talvez, para elas, nada disso tenha qualquer valor. Para elas, o que tem valor é apenas o que elas enxergam, seja através de telas, mas principalmente com seus olhos. É um mundo cético e sem qualquer romance. É um mundo real demais para aceitar qualquer tipo de ficção. E por isso que nada disso é ficção, tudo é real. Boogiepop é real. O que Boogiepop representa está sob o que podem imaginar; a humanização do inumano. A personificação do conceito, da ideia e do “não-existente” em carne e osso. Tão fantasmagórico e tão elusivo, efêmero. Como, realmente, um Anjo da Morte. Um ceifador.
Boogiepop and Others é uma história que, como o nome diz, é “sobre os outros”. É sobre esses que ascenderam do patamar real, e como suas falhas e suas inseguranças podem ameaçar o bem-estar de quem está ao redor, ou até… de mundos inteiros. É uma história que soa tão grandiosa, que ao mesmo tempo soa comum; uma história onde o comum pode ser tão grandioso, e o grandioso tão comum. E, no fim, é uma história desses adolescentes, seus defeitos, suas falhas, seus sentimentos e o amor que sentem, a paixão efervecente, a curiosidade nata. O que você valoriza é o mais importante, e é algo que a sociedade não pode mudar, independente do quanto tente. É o que você acredita e o que você vive que importa. Por certo estamos todos completamente corrompidos pelo vírus da ignorância que paira sobre todos, mas ainda assim, enquanto nossos cérebros estiverem funcionando, e enquanto histórias como essa existirem. Enquanto continuarmos questionando, enquanto o mistério continuar vivo; é isso que importa. O caso não está encerrado ainda, Boogiepop, ainda há adversidades soltas por aí.
Por fim, algo simples: seja gentil com os outros, e talvez mundos sejam salvos.