tenho por mim algumas coisas que opto por não compartilhar, como aquela vez lá. aquilo que ocorreu e foi sobrescrito, não por mim, mas pelo tempo. e já tão distanciado, não me vejo criando qualquer coisa sobre o caso; postergo, portanto, sem conclusões. os dias que passam. um dia esbarrei na rua com uma moça e ela me disse que tudo passa, que aquilo ia passar, que eu nunca mais iria me encontrar com ela; eu não sei onde é que ela mora, ela não sabe por onde eu passo, e eu nunca mais visitei aquele lugar, mas aquela senhora estava errada. ela vive para sempre comigo, eu nunca mais vou me esquecer dela; as vezes as pessoas que não dizem nada nos dizem e deixam com muita coisa. às vezes a ansiedade que parece sem nexo e que estufa nos pulmões sem parecer qualquer coisa, nos diz alguma coisa. nada que possa ser descaracterizado. nada que possa ser realmente vestido, englobado. algumas entidades que dominam as coisas que não podemos tocar, como nossas mentes. se tal vez pensei que podia ser algo que não sou, pensei de forma completamente fora de tom, se em algum momento cogitei que poderia deixar de ser o que sou, se em algum momento me vi tão distanciado, como se ativamente fugisse de mim. e eu estava ativamente fugindo de mim, eu fugi, e até hoje sigo fugindo. e percebo o quanto isso me fere, percebo o quanto isso e doi. percebo a alegoria da desonestidade que carrego, carapaça que criei para me proteger, sinonímia da covardia inerente. exalo dessa covardia. as pessoas assistem filmes, escutam música, leem livros, tudo para colorir o dia delas; e no momento que nada disso parece suficiente. no dia que de nada disso nos alimentarmos, o que há de sobrar? quais pensamentos sobrevalece o não-pensamento? e então nos daremos conta, de que cada segundo conta, e que cada minuto passa em minúcia, e vamos querer nos embriagar do que é bom para não nos confrontamos; veja, meu querido, não queremos ficar sozinhos. não queremos abraçar a solidão e não acreditamos em algo tão fantasioso como “solitude”. você e eu que sabemos o que é estar só, que sabemos e por essência somos solitários; se isolou tanto que se desacostumou a se isolar; se embriagou tanto que se desacostumou a estar sóbrio; se explicou tanto que agora sente falta de dar explicações que não lhe exigem. escreve tanto que perdeu de vista o que é chegar em algum ponto derradeiro.
você.
constantemente.
perde.
a punchline.
não percebeu? mas do que serve a punchline em um período do pós-escrito, do pós-irônico e da pós-verdade. você que tenta acreditar em alguma coisa, mas distribui desonestidade para com tudo, para consigo, e para os outros. você que em nada crê, nem mesmo na própria incapacidade (você acha que consegue superá-la quando quiser, mas só faz se enganar), que busca algo para depositar toda sua crença, que busca alguma certeza,e por tanto tempo buscou, alguma linha pontiaguda para encaixar noutra ponta convoluta para se favorecer de ter algo para não ter mais de pensar em pensar ou de pensar em não ter ou de pensar em não ser. curiosamente a linha que encontra é a linha que se perde no transcrito, perde-se na borda da folha, naquele momento em que a palavra supera o que lhe cabe, e você não querendo deixar um espaço em branco, pula para fora; as letras fazem curva, e todo seu texto foi estragado, simplesmente porque aquela discordância visual nunca vai apetecer seus olhos. e você não tem corretivo, e a caneta azul de ponta grossa que usa faz por tudo manchar, você se arrepende de não ter feito rascunho, mas sabe que se o fizesse não daria tempo, e nesse caso o resultado final seria ainda pior. constantemente não temos tempo, e estamos na busca de, buscando o quê, sendo o quê, precisando de, fazendo para quê. e seguimos em dias de natureza ardilosa; e somos os dias que fazemos ser ardilosos, pensando que mais do que são deveriam ser, pensando que mais do que tem deveríamos fazer ter, pensando que é culpa tua o que nem lhe vem ao juízo; nos dando, no geral, mais importância do que deveríamos ter, procurando por mais perguntas para mais respostas que não temos. não deciframos coisa alguma, estamos realmente tentando fazer algo sobre tudo isso? acredito que não, mas acredito que gostaríamos que as coisas mudassem. tão assim, naturalmente, quase que acidentalmente, quase que, por mero acaso.
acaso.
é o que você espera, como a hora espelhada no relógio, como aquela ligação que lhe fazem na hora que deseja, como se os céus ouvissem as preces de seu espírito que deseja pela voz daquele ou daquela. será que alguém está me ouvindo?
não vale a pena contar com nada disso, é como se eu fosse esperar me encontrar novamente com aquela senhora na rua, pela rua que eu não passo, em um lugar que me é tão alien quanto a própria senhora; é tudo completamente longe da minha realidade. mas se eu, se eu me colocar todos os dias naquele local, se eu passar todos os dias naquela rua, se eu fizer o esforço, se eu vê-la, seria tão especial? eu diria a ela que sua tese estava errada, mas por que eu provaria o seu erro, enquanto estou provando um ponto a mim? por que o movimento cabe uma vez que a incapacidade urge? pois faça comentário do que não é possível fazer e seja o que é possível, mas não incomode o translado com seus desejos mesquinhos
tudo o que pode ser é o que é